A renovação social começa nas eleições?

Será que não estamos esperando do Estado mais do que ele realmente pode e deve fazer?

Estamos novamente em um período de eleições, daqui a pouco vamos escolher presidente, governador, senadores e deputados e, naturalmente, uma parte importante da conversa pública se concentra nessas escolhas. Estamos discutindo candidatos, propostas, partidos, alianças e tentamos entender quem pode conduzir o país nos próximos anos.

Tenho acompanhado esse processo com certo distanciamento, vou votar, considero importante participar da escolha das pessoas que ocuparão essas funções, mas percebo que já não deposito na eleição a mesma expectativa de transformação social que talvez tenha depositado em outros momentos. Isso tem a ver com uma pergunta que venho carregando há algum tempo: será que não estamos esperando do Estado mais do que ele realmente pode e deve fazer?

Quando olhamos para os problemas da sociedade, quase sempre acabamos olhando para o governo. Se a educação não vai bem, discutimos a política educacional, se a economia está com problemas, queremos saber o que o governo fará, se o trabalho está se tornando precário, esperamos uma nova legislação, se queremos mais cultura, ciência ou desenvolvimento, novamente aparece o Estado como o lugar de onde esperamos alguma iniciativa.

É compreensível que seja assim, o Estado hoje concentra recursos, cria leis, organiza políticas públicas e tem um impacto enorme sobre a vida de todos nós, mas, ao mesmo tempo, quanto mais tenho estudado a renovação social, mais tenho a impressão de que estamos colocando dentro da política questões que pertencem a outros lugares da sociedade. Foi nesse caminho que a Trimembração do Organismo Social começou a fazer mais sentido para mim. Rudolf Steiner propôs olhar para a sociedade reconhecendo três dimensões que possuem características bastante diferentes: a vida cultural e espiritual, onde estão a educação, a ciência, a cultura e o desenvolvimento das capacidades humanas. A vida jurídica e política, onde estabelecemos os direitos que regulam nossa convivência, e a vida econômica, onde produzimos, trabalhamos, consumimos e atendemos às necessidades uns dos outros.

Quando estamos no campo do direito, a lei faz sentido porque ali precisamos nos reconhecer como iguais, pouco importa quanto dinheiro uma pessoa possui, qual é sua profissão, sua formação ou aquilo que ela sabe fazer, como cidadãos adultos, participamos da construção das regras que devem valer para todos. É nesse espaço que a democracia encontra seu lugar e é também aí que vejo uma das funções mais importantes do Estado. 

Isso fica muito claro quando pensamos nas relações de trabalho, uma pessoa que precisa trabalhar para garantir sua sobrevivência não necessariamente está nas mesmas condições de negociação de uma grande empresa. Se deixarmos tudo para ser resolvido apenas por um contrato entre as partes, podemos chamar essa relação de livre, embora na prática existam forças bastante diferentes naquela negociação.

É por isso que precisamos de direitos que venham antes do contrato. Jornada de trabalho, condições mínimas, proteção da pessoa que trabalha e outras questões desse tipo precisam ser construídas no campo jurídico, depois disso, dentro dessas condições, empresas e trabalhadores podem estabelecer suas relações econômicas. Então, quando penso em rever o papel do Estado, não estou pensando simplesmente em diminuir sua presença, em determinados lugares talvez precisemos justamente de um Estado capaz de garantir melhor os direitos e impedir que o poder econômico se transforme também em poder sobre as pessoas.

A questão que me interessa está em perceber até onde vai esse papel. Pensemos na educação, uma professora está diante de uma criança e precisa compreender o que aquela criança necessita, como aprende, em que momento está de seu desenvolvimento e qual caminho pedagógico pode ajudá-la. Esse julgamento depende de conhecimento, experiência, observação e vínculo, quanto mais essas decisões são determinadas de fora, por normas cada vez mais detalhadas, menos espaço sobra para quem está efetivamente vivendo o processo educativo.

Podemos, como sociedade, estabelecer que toda criança tem direito à educação, podemos garantir recursos para que esse direito seja realizado e criar mecanismos para proteger crianças e famílias. Mas será que precisamos, a partir disso, determinar cada vez mais como uma escola deve educar? Essa é uma das provocações que encontro na Trimembração. Educação, ciência, cultura e produção do conhecimento precisam de liberdade porque dependem das capacidades humanas. 

Na economia acontece algo diferente, todos os dias milhões de pessoas produzem coisas para pessoas que muitas vezes nem conhecem. Plantamos, transportamos, fabricamos, ensinamos, construímos, cuidamos, compramos e vendemos, dependemos profundamente uns dos outros e precisamos encontrar formas melhores de organizar essa interdependência. Aqui também tenho dificuldade em imaginar que toda renovação virá do Estado.

Podemos criar empresas com outras formas de propriedade, repartir resultados de maneiras diferentes, aproximar produtores e consumidores, desenvolver organizações em que o capital esteja a serviço de uma finalidade, criar associações econômicas e experimentar outras relações entre quem trabalha, quem produz e quem consome. Muitas dessas experiências já existem e podem ser construídas dentro da própria sociedade.

É justamente nesse ponto que minha relação com as eleições mudou, durante muito tempo nos acostumamos a pensar a transformação social a partir da política, elegemos um governo, esperamos alguns anos, avaliamos o que aconteceu e então elegemos outro. Nesse movimento, acabamos imaginando que o futuro da sociedade está principalmente nas mãos das pessoas que ocupam o Estado. Hoje tenho dificuldade em enxergar dessa maneira, uma eleição pode mudar muita coisa, as pessoas que elegemos vão participar da criação das leis, administrar recursos públicos, definir políticas e tomar decisões que afetam diretamente nossas vidas, tudo isso importa e merece nossa atenção.

Mas, no dia seguinte à eleição, continuaremos tendo escolas para transformar, empresas para reorganizar, relações de trabalho para rever, comunidades para fortalecer e novas formas de cooperação para experimentar. Está aí a parte importante da renovação social que procuro compreender, quando penso na eleição que se aproxima, quero saber quem ocupará o Estado e quais ideias essas pessoas defendem, mas quero também continuar fazendo uma pergunta que vai além desta eleição: qual é o papel que queremos dar ao Estado e qual é a responsabilidade que nós, como sociedade, estamos dispostos a assumir?

Porque podemos passar muitos anos esperando que a sociedade seja transformada por quem governa, enquanto isso, uma parte importante dessa transformação pode estar justamente nos lugares em que vivemos, trabalhamos, educamos nossos filhos, produzimos e nos relacionamos uns com os outros. 

A eleição importa, o Estado importa muito, a renovação da vida social, porém, é um trabalho muito maior.

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