Renovação ou revolução?

Existem caminhos e formas de transformar a realidade social, você já pensou nisso?

Vivemos um período em que muitas das estruturas que organizam nossa vida social parecem ter dificuldade para responder aos problemas que elas mesmas ajudaram a criar. O trabalho produz uma quantidade enorme de riqueza, mas vemos cada vez mais pessoas cansadas, adoecidas ou simplesmente sem encontrar muito sentido no que fazem. Nossa capacidade de produzir bens, alimentos e tecnologia nunca foi tão grande e, ainda assim, convivemos com uma enorme concentração de riqueza e com o uso dos recursos naturais em uma escala difícil de sustentar. Também construímos democracias que ampliaram direitos e participação, mas que hoje enfrentam polarização, perda de confiança nas instituições e uma concentração de poder que merece ser discutida.

É nesse contexto que tenho usado com frequência a expressão renovação social.

À primeira vista, renovação pode parecer apenas uma palavra mais suave para falar de mudança, mas comecei a perceber que existe uma diferença importante entre falar em renovação e falar em revolução, porque as duas palavras carregam formas diferentes de imaginar como uma sociedade se transforma.

O que significa uma revolução?

A palavra revolução adquiriu, principalmente a partir da modernidade, o sentido de uma transformação profunda da ordem existente. Quando falamos das grandes revoluções da história, estamos falando de momentos em que estruturas políticas, relações de propriedade, sistemas jurídicos e formas de organização econômica foram profundamente alterados.

Nem toda revolução acontece da mesma maneira e a violência, embora tenha feito parte de muitos processos revolucionários, não é o que define uma revolução. O que me parece mais importante nessa ideia é a ruptura, existe uma determinada ordem social e, em algum momento, suas estruturas são contestadas e substituídas ou reorganizadas de maneira profunda.

Existe também uma maneira de pensar a transformação que muitas vezes acompanha os movimentos revolucionários, primeiro fazemos uma crítica da sociedade que temos, depois formulamos uma ideia da sociedade que queremos e, a partir daí, procuramos construir as estruturas capazes de realizar esse projeto.

Esse caminho teve uma importância enorme na história e muitas conquistas sociais nasceram de movimentos que questionaram radicalmente a ordem de seu tempo. Ao mesmo tempo, a experiência histórica também mostra como é difícil desenhar previamente uma sociedade e depois fazer com que a vida se organize de acordo com esse desenho, afinal, uma sociedade é feita de milhões de pessoas, organizações, relações, culturas, conhecimentos e interesses que estão continuamente se transformando.

Foi pensando nisso que a palavra renovação começou a fazer mais sentido para mim.

O que significa renovar?

Quando usamos a palavra renovação em outros contextos, normalmente estamos falando de algo que continua existindo, mas que passa por uma transformação. Uma floresta, por exemplo, se renova continuamente, algumas árvores envelhecem e morrem, outras crescem, novas espécies encontram espaço e as relações dentro daquele ambiente vão mudando. Depois de algum tempo, aquela floresta já não é exatamente a mesma, embora exista uma continuidade entre aquilo que ela era e aquilo que se tornou.

Gosto dessa imagem porque ela ajuda a pensar a transformação da sociedade de uma maneira menos mecânica. As novas formas sociais também podem surgir assim, a partir das experiências que as pessoas fazem dentro da própria sociedade, algumas funcionam durante um período e desaparecem, outras vão sendo modificadas conforme surgem dificuldades, e algumas encontram respostas interessantes para problemas que muitas pessoas estão enfrentando e começam a se espalhar.

Quando prestamos atenção ao que está acontecendo hoje, encontramos muitas experiências desse tipo. Existem empresas buscando formas de organização nas quais quem colocou o capital já não precisa concentrar, por esse motivo, todo o poder sobre o futuro da organização. O steward ownership é uma dessas experiências, ao procurar separar o poder de decisão da propriedade financeira e criar estruturas capazes de preservar a finalidade da empresa ao longo do tempo.

Também existem organizações experimentando maneiras mais distribuídas de tomar decisões, empresas reduzindo jornadas de trabalho, grupos criando outras formas de participação nos resultados e ambientes que procuram aproximar as funções exercidas pelas pessoas de suas capacidades e interesses.

Algo semelhante acontece em outros campos, comunidades criam relações mais próximas entre produtores e consumidores, escolas experimentam modelos associativos em que famílias, educadores e profissionais assumem responsabilidades diferentes pela sustentação da instituição, enquanto cooperativas, moedas locais, bancos éticos, fundos de propriedade coletiva e iniciativas de economia solidária procuram responder, cada uma a seu modo, a questões que permanecem abertas em nossa organização econômica.

Nenhuma dessas experiências precisa ser tomada como modelo para toda a sociedade, mas são interessantes justamente porque podemos observá-las, entender o que funcionou, perceber onde apareceram problemas, aprender com aquilo que aconteceu e criar o melhor formato possível para seu contexto social. E é aqui que, para mim, está uma das ideias mais importantes da renovação social, a sociedade também pode aprender.

Aprender com aquilo que fazemos

Uma empresa decide reduzir sua jornada de trabalho e observa o que acontece, a produtividade muda, as relações mudam, aparecem dificuldades que ninguém havia previsto e surgem também benefícios que antes eram apenas hipóteses. As pessoas envolvidas aprendem com a experiência e fazem ajustes. Outras empresas conhecem o que aconteceu, experimentam algo parecido em contextos diferentes e acrescentam novas soluções. Esse processo parece bastante natural quando falamos de tecnologia, ciência ou educação, experimentamos alguma coisa, observamos seus efeitos, aprendemos e seguimos desenvolvendo, mas também podemos pensar dessa maneira  quando falamos das estruturas que organizam a sociedade.

Podemos experimentar novas formas de propriedade, novas relações entre capital e trabalho, maneiras diferentes de governar organizações, outros sistemas de financiamento e novas relações entre quem produz e quem consome. Ao fazer isso, começamos a produzir um conhecimento social que nasce da experiência e que pode orientar transformações maiores.

Por isso, quando falo em renovação social, penso menos em um modelo pronto de sociedade e mais na criação de condições para que essas experiências possam acontecer, ser conhecidas, avaliadas e desenvolvidas. Algumas vão mostrar seus limites rapidamente, outras vão precisar de muitos ajustes e algumas podem acabar transformando estruturas que hoje parecem quase naturais para nós.

Reforma, renovação e revolução

Reforma, renovação e revolução acabam descrevendo movimentos diferentes, embora na vida real essas fronteiras nem sempre sejam tão claras. Uma reforma normalmente procura melhorar uma estrutura que já existe, corrigindo problemas ou atualizando determinadas regras. Uma revolução envolve uma ruptura mais profunda com a ordem estabelecida e pode reorganizar algumas de suas estruturas fundamentais. Já a renovação acontece quando novas formas começam a se desenvolver dentro da própria vida social e, conforme amadurecem, passam a modificar aquilo que existia antes.

Isso também significa permitir que algumas estruturas desapareçam. Existem instituições e formas de organização que fizeram sentido em determinado momento histórico e que, com o passar do tempo, podem deixar de responder às necessidades que lhes deram origem. Renovar envolve reconhecer esse movimento e abrir espaço para outras formas quando elas começam a demonstrar que conseguem responder melhor à realidade.

É nesse sentido que uso a expressão renovação social.

Estou interessado nas experiências que podem nos ajudar a reorganizar profundamente as instituições que estruturam nossa vida, seja na maneira como governamos uma empresa, distribuímos os resultados econômicos, organizamos o trabalho, financiamos a educação, tomamos decisões coletivas ou compreendemos a própria ideia de propriedade.

Muitas dessas experiências já existem e, quando começamos a conhecê-las, percebemos que a transformação social não é apenas uma ideia para o futuro, é algo que já está acontecendo em organizações, comunidades e iniciativas que estão tentando fazer as coisas de outra maneira e, ao fazer isso, estão produzindo conhecimento sobre o que funciona, o que precisa ser revisto e quais possibilidades ainda podem ser desenvolvidas.

É assim que tenho compreendido a renovação social, como um processo em que somos capazes de olhar para aquilo que estamos fazendo, aprender com a experiência e transformar nossas instituições a partir desse aprendizado. O futuro social vai sendo construído nesse movimento, muito mais vivo e imprevisível do que qualquer modelo que pudéssemos desenhar antecipadamente.

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