Uma empresa precisa ter dono?
Quando pensamos em uma empresa, quase automaticamente pensamos em seus donos.
Alguém teve uma ideia, investiu dinheiro, assumiu riscos e criou uma organização, parece natural, portanto, que essa pessoa seja proprietária não apenas dos bens da empresa, mas também do próprio empreendimento, podendo vendê-lo, transmiti-lo aos filhos ou extrair dele os resultados econômicos que considerar adequados.
Mas pense comigo: uma empresa pode ser comparada a uma propriedade, como uma casa, um automóvel ou um terreno?
Uma empresa é formada por capital, certamente, mas também pelo trabalho de muitas pessoas, pelo conhecimento acumulado ao longo dos anos, pelas relações com clientes e fornecedores, pela confiança construída socialmente e, sobretudo, por uma finalidade, alguma necessidade humana que aquela organização procura atender.
Quando olhamos dessa maneira, a ideia de propriedade começa a ficar mais complexa.
Quem deve governar uma empresa?
Existe hoje um movimento internacional conhecido como steward ownership, expressão que poderia ser traduzida aproximadamente como "propriedade responsável", "propriedade por custódia" ou "propriedade por propósito".
Mais importante do que encontrar uma tradução perfeita é compreender a mudança de lógica que ele propõe, segundo a Purpose, organização dedicada à difusão desse modelo, empresas estruturadas dessa maneira seguem dois princípios fundamentais: autodeterminação e orientação à finalidade.
O primeiro significa que o poder de decisão permanece nas mãos de pessoas diretamente vinculadas à empresa e à sua missão, quem governa não precisa ser necessariamente quem possui mais capital. O segundo estabelece que o lucro é um meio, e não a finalidade da organização, os resultados econômicos devem servir à continuidade, ao desenvolvimento e à missão da empresa, em vez de existirem primordialmente para aumentar o patrimônio pessoal de seus proprietários.
É uma mudança aparentemente pequena, mas que toca em uma das estruturas fundamentais da economia moderna: a relação entre propriedade e poder.
Capital e poder não precisam ser a mesma coisa
Na empresa convencional, três coisas costumam estar reunidas: capital, propriedade e poder de decisão. Quem coloca ou possui o capital tende a possuir a empresa e, consequentemente, o direito de governá-la.
O steward ownership procura separar essas funções, o capital continua sendo necessário, investidores podem financiar empreendimentos e receber retornos dentro das estruturas estabelecidas, mas o simples fato de possuir capital não precisa conceder indefinidamente o direito de determinar a finalidade da organização.
O poder pode permanecer com pessoas responsáveis por conduzir a empresa e preservar sua missão, essa separação produz uma consequência importante, a empresa deixa de ser apenas um patrimônio negociável, ela pode atravessar gerações sem precisar ser vendida simplesmente porque seus fundadores envelheceram ou porque seus herdeiros não desejam ou não possuem capacidade para conduzi-la.
A sucessão, neste formato, deixa de ser apenas uma questão de herança patrimonial e passa a ser uma questão de responsabilidade e capacidade.
Isso já existe
Não estamos falando apenas de uma ideia teórica, empresas conhecidas internacionalmente utilizam diferentes estruturas inspiradas nesses princípios, a Purpose cita organizações como Zeiss, Bosch, Novo Nordisk, Patagonia, Carlsberg e Signal, entre outras.
Os modelos jurídicos não são iguais, em alguns casos existem fundações controladoras, em outros, trusts, há ainda estruturas que utilizam diferentes classes de ações ou mecanismos específicos para proteger juridicamente a finalidade da organização. A forma pode variar conforme a legislação e a história de cada país, o elemento comum é a tentativa de proteger dois princípios: a independência da organização e sua orientação para uma finalidade.
Isso demonstra algo importante, não precisamos escolher apenas entre empresa privada tradicional e empresa estatal, existem outras maneiras de organizar propriedade, capital e governança.
Quem manda nessa empresa?
Podemos imaginar organizações nas quais o capital cumpra sua função econômica sem comprar permanentemente o poder, nas quais os fundadores possam criar sem transformar necessariamente seus descendentes em futuros controladores, e nas quais pessoas capazes de compreender e sustentar a finalidade da organização possam assumir sua condução.
Nesse sentido, a empresa deixa de ser entendida apenas como propriedade e começa a ser percebida como um organismo social.
O lucro continua importante
Orientar uma empresa por sua finalidade não significa negar a importância do resultado econômico. Uma organização que não consegue gerar recursos suficientes para sustentar sua atividade dificilmente conseguirá cumprir sua missão por muito tempo.
A diferença está no que fazer com o lucro, o foco de retirar a maior rentabilidade possível dos resultados da empresa é transformado em qualificar o uso dos recursos cumprindo bem sua finalidade. O excedente pode financiar investimentos, inovação, melhores condições de trabalho, expansão da atividade, reservas para momentos difíceis ou outras iniciativas coerentes com a missão da organização.
Uma nova compreensão da propriedade
Uma das transformações sociais necessárias para nosso tempo é aprender a distinguir possuir alguma coisa de ser responsável por alguma coisa.
Uma casa pode pertencer a alguém, mas será que uma escola deveria pertencer a alguém da mesma maneira? Um hospital? Uma empresa com milhares de trabalhadores? Uma organização que acumulou durante décadas conhecimento, relações, infraestrutura e confiança social?
Quanto maior e mais complexa se torna uma organização, mais difícil parece afirmar que tudo aquilo seja simplesmente extensão do patrimônio de uma pessoa. O steward ownership oferece uma experiência concreta para essa questão, a partir de um princípio: o poder sobre uma organização pode estar ligado à responsabilidade por sua finalidade, e não simplesmente à propriedade do capital.
Essa ideia se aproxima do que tenho chamado de sociedade integrada, uma sociedade na qual procuramos compreender com maior precisão a finalidade de cada instituição e organizar suas relações a partir dela. O futuro das empresas compreende o empreendedor, o investimento e o lucro, mas dentro de um contexto coerente com a vida em sociedade, no qual o empreendedor cria, o capital possibilita, o trabalho realiza e a governança cuida para que a organização permaneça orientada à sua finalidade.
Cada elemento cumpre, assim, uma função própria. O capital oferece os meios necessários para que algo possa acontecer, o trabalho transforma capacidades humanas em produtos e serviços, a governança articula essas forças e preserva a finalidade que dá sentido à organização e o lucro sustenta sua continuidade, permite investimentos e abre possibilidades para novos movimentos.
Quando conseguimos distinguir essas funções, a empresa muda do paradigma de ser patrimônio e passa a ser percebida como uma rede de relações organizada em torno de uma finalidade. Isso nos aproxima de uma compreensão mais coerente da própria vida econômica, pessoas colocando suas capacidades a serviço das necessidades de outras pessoas.