A origem do stress e a gestão de metas

Quando falamos em estresse, é comum pensarmos primeiro em nossas vidas com excesso de compromissos, dificuldades familiares, problemas financeiros, falta de descanso ou incapacidade de administrar bem o próprio tempo.

Essa perspectiva tem sua importância, mas esconde uma questão maior, quanto do nosso estresse é realmente individual e quanto é produzido pela maneira como organizamos a sociedade?

Em O Mito do Normal, Gabor Maté e Daniel Maté ampliam essa discussão ao relacionar saúde, cultura e organização social. O estresse crônico é apresentado a partir da ativação e manutenção do sistema nervoso em estado de alerta, e como isso interfere nos mecanismos hormonais, influencia processos inflamatórios e afeta nosso bem-estar físico e mental.

Muitos dos fatores que desencadeiam esse estado são emocionais e sociais, como a a incerteza, conflito, falta de controle, falta de informação, ameaça de perda, isolamento e ausência de pertencimento. O organismo reage quando percebe ameaçado algo necessário à sua existência, como um um animal que pode perder alimento ou proteção. Para o ser humano, a ameaça pode assumir outras formas como, perder o emprego, não conseguir sustentar a família, perder reconhecimento, dignidade, pertencimento, autonomia ou significado, por isso, compreender o estresse exige olhar também para o ambiente em que vivemos.

Quando o ambiente produz estresse

Nossa sociedade alcançou uma extraordinária capacidade de produção, nunca produzimos tantos bens, serviços, conhecimentos e tecnologias ao mesmo tempo, organizamos boa parte da vida econômica em torno da competição, do crescimento permanente e da busca crescente por produtividade.

Essa lógica chega diretamente ao mundo do trabalho, metas individuais, avaliações constantes de desempenho, competição entre colegas, insegurança em relação ao emprego, pressão por resultados, jornadas extensas e necessidade permanente de demonstrar produtividade passaram a fazer parte da experiência cotidiana de milhões de pessoas.

O problema aparece quando tratamos os efeitos desse ambiente exclusivamente como uma questão individual, ensinamos técnicas para administrar o estresse, oferecemos programas de bem-estar, incentivamos exercícios físicos, meditação e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Tudo isso pode ser valioso, mas permanece uma pergunta anterior, e se parte do sofrimento não estiver apenas na capacidade das pessoas de lidar com o trabalho, mas na própria maneira como organizamos o trabalho?

Nesse caso, cuidar das pessoas exige também transformar as estruturas nas quais atuamos. 

O trabalho toca necessidades profundamente humanas

O trabalho ocupa uma parcela enorme da vida adulta, vai além da troca entre horas trabalhadas e remuneração. Por meio do trabalho podemos experimentar competência, reconhecimento, pertencimento, autonomia, aprendizado e propósito. Podemos perceber que nossas capacidades têm valor para outras pessoas.

Do outro lado, um trabalho no qual existe pouco espaço de decisão, medo constante de errar, competição permanente, pressão por metas e pouca conexão com o sentido da atividade pode transformar justamente aquilo que poderia ser fonte de realização em fonte contínua de tensão. Há aqui uma contradição importante, as organizações precisam de resultados, precisam ser economicamente sustentáveis, atender clientes, pagar salários, investir, inovar e responder às transformações do ambiente. Resultados são fundamentais, mas precisamos avaliar como chegar a eles. 

Da meta individual à finalidade da organização

Uma das mudanças necessárias está na maneira como compreendemos as metas. Em grande parte das organizações, o objetivo institucional é fragmentado em metas individuais, cada pessoa passa a carregar uma parcela do resultado esperado e é avaliada segundo sua capacidade de entregá-la.

Isso parece racional, mas produz um efeito importante, aquilo que deveria ser uma responsabilidade da organização passa a ser experimentado como pressão individual.

Podemos imaginar outra lógica, com a meta pertencendo à organização. É a organização que precisa cumprir sua finalidade, alcançar sustentabilidade econômica, atender adequadamente seus clientes e produzir aquilo que a sociedade necessita. As pessoas não precisam competir entre si para alcançar fragmentos desse resultado, precisam ocupar funções nas quais suas capacidades possam contribuir da melhor maneira possível para a finalidade comum.

Isso muda profundamente o caminho do resultado, ao invés de entender quanto cada um produziu, vamos reconhecer como as capacidades das pessoas podem contribuir para aquilo que precisamos realizar juntos. O resultado se transforma desta maneira em um um processo de aprendizagem.

Organizações que aprendem

Indicadores, planejamento ou responsabilidade seguem sendo ferramentas de gestão, já que uma organização precisa observar continuamente seus resultados, mas os indicadores podem deixar de funcionar como instrumentos de pressão individual e passar a funcionar como fontes de informação para o aprendizado coletivo. Se um resultado não foi alcançado, a primeira pergunta não precisa ser: quem falhou? Podemos perguntar: O que não compreendemos? O que mudou na necessidade dos clientes? Nosso processo precisa ser revisto? As pessoas estão atuando nas funções adequadas às suas capacidades? O que nossos fornecedores estão percebendo? Que conhecimento surgiu na prática e ainda não chegou aos espaços de decisão? Assim, clientes, trabalhadores, fornecedores e gestores tornam-se participantes de um processo permanente de aprendizado e a  melhoria passa a nascer da consciência.

Repensar o contrato de trabalho

Se quisermos falar seriamente em renovação social, é necessário avançar ainda mais. Não basta humanizar ambientes de trabalho mantendo intacta a estrutura que os produz, precisamos começar a experimentar outros modelos de contratação e de organização econômica.

Isso significa jornadas de trabalho menores, permitindo que o trabalho volte a ocupar uma parte da vida, e não a vida inteira. Transformar os mecanismos salariais, considerando uma parcela maior dos resultados financeiros sejam compartilhados com as pessoas que participaram de sua construção, aproximando trabalho, responsabilidade e prosperidade.

Abandonar progressivamente uma cultura baseada em metas individuais e construir organizações orientadas por uma finalidade institucional compartilhada. Permitir que as pessoas encontrem funções nas quais suas capacidades sejam necessárias e possam ser desenvolvidas, ampliando sua participação na escolha dos lugares que ocupam dentro da organização.

Nesse modelo, ninguém deixa de ter responsabilidades, pelo contrário, a responsabilidade passa a ser fomentada cada vez mais pela compreensão, autonomia, compromisso e participação, não pela pressão.

Uma economia a serviço do desenvolvimento humano

Para que organizamos o trabalho? Se a resposta for apenas produzir cada vez mais, continuaremos buscando maneiras de adaptar o ser humano às necessidades do sistema econômico. Mas podemos inverter essa relação ao criar organizações economicamente sustentáveis justamente porque conseguem reconhecer e desenvolver as capacidades humanas que existem dentro delas.

A empresa precisa de resultados, mas os resultados são uma responsabilidade institucional. As pessoas precisam de dignidade, pertencimento, autonomia, desenvolvimento, reconhecimento e sentido, conciliar essas duas dimensões é uma das grandes tarefas da renovação social.

Isso exige novas formas de propriedade, novas relações de trabalho, novas maneiras de distribuir os resultados e, principalmente, uma nova compreensão sobre o lugar do ser humano dentro da economia. Precisamos substituir uma cultura baseada no medo de não alcançar por uma cultura baseada na capacidade de aprender e realizar juntos.

Uma organização verdadeiramente saudável é aquela em que cada pessoa consegue oferecer o melhor de suas capacidades enquanto participa de algo que faz sentido para os outros. A renovação social está além de ser uma ideia, é a prática da economia organizada para as pessoas. 

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