Autoeducação
O caminho entre aquilo que somos e aquilo que podemos nos tornar
Dor, sofrimento, alegria, prazer, encontros e perdas fazem parte da experiência humana. Não escolhemos tudo o que nos acontece, mas podemos, pouco a pouco, transformar a maneira como nos relacionamos com aquilo que vivemos. Uma experiência difícil pode simplesmente passar por nós ou pode se transformar em maturidade. Um conflito pode apenas produzir ressentimento ou revelar algo sobre nós mesmos. Um erro pode ser escondido, justificado e repetido ou tornar-se aprendizado.
É nesse espaço entre o que acontece conosco e o que fazemos com aquilo que acontece que compreendo a autoeducação. Autoeducar-se é desenvolver a capacidade de observar a si mesmo, ampliar a autoconsciência e, a partir dela, transformar hábitos, pensamentos, sentimentos e comportamentos. É deixar de ser conduzido apenas pelas próprias reações e começar a participar conscientemente daquilo que estamos nos tornando.É fácil falar sobre isso, o desafio é praticar.
Quem em mim está agindo?
Existe uma pergunta simples que pode acompanhar o caminho da autoeducação: Quem em mim está tomando esta decisão? Uma parte de nós deseja segurança, reconhecimento, prazer e pertencimento, quer estar certa, defender suas posições, preservar aquilo que conquistou e evitar aquilo que provoca desconforto. Podemos chamar essa dimensão de ego.
O ego não é um problema em si, precisamos de uma identidade para viver no mundo, o problema aparece quando nos confundimos inteiramente com ele. E isso acontece quando nossas ideias parecem ser a verdade, os desejos parecem necessidades, os medos parecem descrever a realidade e muitas vezes passamos a vida tentando mudar o mundo exterior sem perceber aquilo que, dentro de nós, participa dos conflitos que vivemos.
Mas também podemos reconhecer outra experiência interior. Há momentos em que conseguimos observar nossos próprios pensamentos sem sermos completamente levados por eles, reconhecemos uma emoção antes de agir, percebemos um padrão que repetimos há anos, conseguimos renunciar a uma satisfação imediata porque algo mais importante nos chama.
Na visão antroposófica, podemos compreender essa dimensão mais profunda da individualidade como o Eu. Yung também nomeou como Self. A autoeducação nasce justamente da possibilidade de criar uma relação cada vez mais consciente entre o ego, nossa personalidade, hábitos, desejos, medos e condicionamentos e esse núcleo mais profundo de nossa individualidade.
Construir uma ponte interior
Algumas tradições espirituais utilizam a imagem do Antahkarana para falar de uma ponte interior entre diferentes dimensões do ser humano. Rudolf Steiner, a partir de outra linguagem e tradição, também descreve caminhos de desenvolvimento pelos quais pensamento, sentimento e vontade podem ser progressivamente transformados.
Mais do que discutir aqui a natureza dessa ligação, interessa-me a imagem que ela oferece: existe uma ponte interior que pode ser fortalecida. Cada vez que conseguimos observar uma reação antes de simplesmente obedecê-la, fortalecemos essa ponte.
Cada vez que reconhecemos honestamente um erro, que atravessamos um sofrimento procurando compreender o que ele pode nos ensinar, que abrimos mão de uma certeza para escutar verdadeiramente outra pessoa, algo em nós amadurece.
A vida inteira pode tornar-se, assim, matéria-prima para a autoeducação. É na vida cotidiana que se realiza esse trabalho, nos relacionamentos, trabalho, família, nas decisões econômicas, nas frustrações e nos conflitos que encontramos aquilo que precisa ser transformado.
A metamorfose
Gosto da palavra metamorfose porque ela não significa simplesmente mudar de comportamento. Na natureza, a metamorfose acontece quando uma forma já não é suficiente para aquilo que está surgindo.
Algo semelhante aconteça conosco, durante muito tempo podemos responder à vida de determinada maneira, buscando reconhecimento, defendendo posições, vamos repetimos conflitos, perseguimos desejos ou tentamos controlar aquilo que nos provoca insegurança. Até que, em algum momento, percebemos que aquela forma de existir já não responde ao que queremos nos tornar.
Essa percepção não produz automaticamente a mudança, a autoeducação exige prática, dedicação e disciplina. Meditação, estudo, contemplação, exercícios de atenção e observação de si podem contribuir para esse processo, cada pessoa encontrará práticas que façam sentido para sua própria trajetória.
Mas existe algo comum a todas elas: a disposição de deixar de obedecer automaticamente a si mesmo. Liberdade não é simplesmente fazer aquilo que desejo, em muitos momentos, aquilo que desejo é justamente aquilo que menos escolhi: uma reação aprendida, um medo antigo, uma necessidade de reconhecimento ou um hábito profundamente instalado. A liberdade começa quando consigo perceber essas forças e criar algum espaço diante delas.
O exercício da calma interior
Rudolf Steiner propõe, como fundamento do desenvolvimento interior, a criação de momentos de calma nos quais aprendemos a observar a própria vida. Podemos começar de maneira muito simples, separar alguns minutos do dia, silenciar, perceber a respiração, recordar acontecimentos vividos e tentar observá-los como se estivéssemos olhando para outra pessoa.
O que aconteceu comigo? O que senti? Por que reagi daquela maneira? Que desejo estava presente? Que medo estava escondido naquela decisão? O desafio é observar sem imediatamente justificar ou condenar.
Pouco a pouco, podemos experimentar algo semelhante a subir uma montanha e olhar a paisagem de cima. Os pensamentos, sentimentos e desejos continuam existindo, mas já não estamos completamente misturados a eles, surge um pequeno espaço interior, nesse espaço que começa a liberdade.
Autoeducação como prática de liberdade
A autoeducação não é a busca por perfeição, tampouco uma tentativa de eliminar sentimentos, desejos ou conflitos. É um exercício permanente de consciência, de aprender a reconhecer aquilo que vive em nós para que possamos participar de sua transformação.
Quanto mais consigo perceber minhas próprias forças, contradições e automatismos, maior é a possibilidade de escolher como quero agir diante do outro e do mundo, por isso, para mim, autoeducação e liberdade estão profundamente ligadas.
Não somos livres apenas porque podemos escolher entre diferentes possibilidades externas. A liberdade também depende de conhecermos quem, dentro de nós, está escolhendo. Este é um trabalho para toda a vida: diminuir a distância entre aquilo que somos hoje e aquilo que, silenciosamente, percebemos que podemos nos tornar.