Novo paradigma econômico
O ser humano no centro da vida social
A questão social moderna não pode ser compreendida apenas pela economia. Para entendê-la, é preciso voltar-se para aquilo que vive nas aspirações mais profundas do ser humano e investigar como a evolução da sociedade industrial moldou a consciência moderna.
O surgimento da consciência proletária
Com o desenvolvimento das máquinas e do capitalismo industrial, o trabalhador passou a ocupar uma posição inteiramente nova na vida social. Ao ser inserido em uma ordem técnica e econômica cada vez mais complexa, perdeu progressivamente a ligação viva com o significado humano de seu trabalho.
O artesão tradicional experimentava uma relação direta com aquilo que produzia, via no resultado de sua atividade uma contribuição concreta para a vida em sociedade. O produto de seu trabalho carregava algo de sua individualidade, e isso lhe conferia dignidade e pertencimento.
Na indústria moderna, porém, o trabalhador foi colocado ao lado da máquina e subordinado às exigências do processo econômico, muitos deixaram de experimentar o trabalho como expressão de suas capacidades humanas e passaram a sentir-se reduzidos a uma função dentro do sistema produtivo.
Foi nesse contexto que surgiu a consciência proletária. As ideologias sociais e econômicas procuraram oferecer uma interpretação para essa experiência, explicando a divisão entre proprietários e trabalhadores e apontando para as contradições existentes na ordem capitalista.
A divisão entre proprietários e trabalhadores
Enquanto grande parte dos trabalhadores se percebia separada do sentido humano de sua atividade, as classes dirigentes continuavam a encontrar reconhecimento e significado em suas posições sociais, em sua formação intelectual e em sua participação na condução das organizações.
Essa separação produziu uma profunda dificuldade para enfrentar a questão social. A polarização entre proprietários e empregados, entre capital e trabalho, passou a dominar a compreensão da realidade, impedindo que se reconhecessem as causas mais profundas do problema.
Ainda hoje essa divisão se manifesta de diferentes formas, alguns depositam suas esperanças na distribuição dos meios de produção, outros acreditam na ascensão individual e no ideal do empreendedor bem-sucedido. Em ambos os casos, a transformação continua sendo buscada principalmente no campo econômico.
A sociedade do cansaço e a perda do elemento humano
O ser humano contemporâneo encontra-se frequentemente submetido a uma enorme pressão, vive sob a exigência constante de desempenho, produtividade e sucesso, carrega ansiedade, esgotamento e a sensação permanente de precisar vencer na vida.
Ao mesmo tempo, muitos se tornam espectadores passivos da cultura de consumo, absorvendo aquilo que é produzido pela indústria cultural sem encontrar um verdadeiro sentido para sua existência. Esses fenômenos revelam que a crise social não é apenas econômica, é antes de tudo, uma crise humana e espiritual.
O organismo social adoece quando as capacidades humanas deixam de ser reconhecidas e quando as pessoas passam a experimentar a impotência diante das estruturas econômicas que elas mesmas criaram.
O equívoco de transformar o trabalho em mercadoria
A economia moderna tende a transformar tudo em mercadoria, desde os produtos e serviços, até a força de trabalho humana. No passado, a escravidão comercializava o homem inteiro, hoje, não se vende mais a pessoa, mas o tempo e o trabalho são considerados um custo ou tem um preço. Essa sensação de ser usado como mercadoria está presente no trabalhador moderno, ainda que de forma inconsciente. Não queremos aceitar a percepção de que o ser humano é uma mercadoria e de que nossa dignidade não pode ser reduzida a um valor econômico.
A verdadeira tarefa social consiste em retirar o trabalho humano da lógica puramente econômica.
A economia deve tratar da produção, circulação e consumo dos bens, o ser humano, porém, pertence a uma esfera superior, sua atividade é expressão de suas capacidades, de sua individualidade e de sua dimensão espiritual. Enquanto todas as relações humanas forem subordinadas ao poder econômico, será impossível compreender adequadamente a questão social.
Um novo paradigma para a vida social
Durante séculos, a humanidade considerou natural a escravidão, hoje, considera natural a compra e venda da força de trabalho. Pode ser que as futuras gerações olhem para essa situação com o mesmo espanto com que hoje observamos as antigas formas de servidão.
A construção de uma sociedade saudável exige uma mudança de paradigma, em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o ser humano é o fundamento da vida social. Em segundo lugar, é necessário compreender que o trabalho é expressão das capacidades humanas e, portanto, possui uma natureza espiritual que precisa encontrar uma integração adequada na sociedade. Em terceiro lugar, a vida econômica deve estar a serviço do ser humano e da humanidade, e não o contrário.
Instituições baseadas na parceria
A superação da questão social não será alcançada pela luta entre classes, nem pela simples busca do lucro individual. Exige a criação de instituições capazes de unir empreendedores e colaboradores em torno de uma tarefa comum.
Todo produto ou serviço é resultado da contribuição de muitas pessoas, cada trabalhador participa da realização da obra coletiva da organização. O reconhecimento dessa realidade conduz a uma nova compreensão das relações econômicas.
Em vez de considerar as pessoas como máquinas remuneradas para gerar lucro, torna-se possível desenvolver formas associativas em que todos participem da responsabilidade pelos resultados, compartilhando tanto os êxitos quanto os desafios.
Uma economia verdadeiramente humana nasce quando a cooperação substitui a oposição e quando o trabalho volta a ser reconhecido como expressão da individualidade humana.
A renovação da vida social começa quando o ser humano deixa de ser um instrumento da economia e a economia passa novamente a servir ao desenvolvimento do ser humano.