Patriotismo e Humanismo
O mal-estar da condição humana
Existem perguntas que acompanham a humanidade desde seus primórdios. Por que, apesar de desejarmos a paz, produzimos guerras? Por que, mesmo buscando o amor, convivemos com a agressividade? Por que construímos culturas, religiões, estados, empresas e sistemas econômicos cada vez mais sofisticados e, ainda assim, permanecemos profundamente insatisfeitos?
O mal-estar da civilização tem sua raiz além das instituições ou da prórpia sociedade, é um sentimento que nasce pela própria constituição da natureza humana.
Vivem em cada ser humano dois impulsos fundamentais. Um deles dirige-se à afirmação da própria existência, manifesta-se na busca por sobrevivência, segurança, prazer, reconhecimento, realização e poder. Graças a esse sentimento, preservamos a vida, desenvolvemos capacidades e transformamos o mundo. O outro impulso dirige-se ao encontro com o semelhante, é dele que nascem as amizades, o cuidado, a cooperação, a compaixão e o amor. Enquanto o primeiro pergunta "o que eu preciso?", o segundo pergunta "do que o outro necessita?".
Esses impulsos não representam um defeito da humanidade, nem um estágio provisório de nossa evolução, mas constituem a própria condição humana. Queremos liberdade, mas também buscamos segurança, desejamos pertencer e, ao mesmo tempo, afirmar nossa individualidade. Sonhamos com fraternidade, mas competimos por reconhecimento, somos capazes de extraordinária generosidade e de profunda violência.
O mal-estar nasce exatamente dessa polaridade, não porque o ser humano seja essencialmente mau, nem porque a sociedade tenha falhado completamente, mas porque carregamos em nós uma tensão permanente entre impulsos que nos aproximam dos outros e impulsos que nos fazem retornar continuamente ao centro de nós mesmos. A história da humanidade pode ser compreendida como a tentativa incessante de encontrar um equilíbrio entre essas duas forças.
A primeira grande ampliação da consciência
Essa tensão interior nunca impediu o desenvolvimento da civilização, pelo contrário, foi justamente ela que impulsionou o ser humano a criar formas cada vez mais amplas de convivência. Yuval Noah Harari observa que a grande transformação da nossa espécie ocorreu durante aquilo que chamou de Revolução Cognitiva. Nesse momento, o Homo sapiens adquiriu uma capacidade singular, criar realidades compartilhadas pela imaginação.
Empresas, moedas, universidades, religiões, nações, foram criadas e existem atualmente porque milhões de pessoas acreditam nelas simultaneamente. São narrativas compartilhadas que organizam nossa cooperação, foi essa capacidade que permitiu algo inédito na história da vida. Enquanto outras espécies cooperam apenas em pequenos grupos ou entre parentes próximos, os seres humanos passaram a colaborar com milhões de desconhecidos. Foi essa imaginação compartilhada que tornou possíveis as cidades, os impérios, os sistemas jurídicos, os mercados, as universidades e praticamente todas as instituições que conhecemos.
O patriotismo pertence a essa mesma história, uma nação não é apenas um território delimitado ou uma população, é também uma memória comum, uma língua, símbolos, valores e uma narrativa compartilhada que permite que milhões de pessoas sintam-se pertencentes a uma mesma comunidade, mesmo sem jamais se conhecerem.
Nesse sentido, o patriotismo representa uma extraordinária conquista da consciência humana., onde o círculo do pertencimento amplia-se, o indivíduo deixa de viver apenas para si ou para sua família e passa a identificar-se com uma comunidade muito maior. Mas é justamente aí que aparece seu limite.
O limite do patriotismo
Toda ampliação do pertencimento representa um progresso, porém, cada etapa da história ampliou o círculo da cooperação mais rapidamente do que ampliou o círculo da consciência. O patriotismo une milhões de pessoas, mas continua estabelecendo uma fronteira.
Existe "o nosso povo", e existem "os outros", a solidariedade amplia-se, mas ainda permanece delimitada pela identidade coletiva. Sob esse aspecto, o patriotismo pode ser compreendido como uma forma elevada de egoísmo, já não se trata apenas do egoísmo do indivíduo, mas do egoísmo de uma comunidade inteira.
Essa afirmação não diminui sua importância histórica, pelo contrário, o patriotismo foi um enorme avanço em relação ao individualismo, tornou possível níveis inéditos de solidariedade, organização e responsabilidade coletiva, mas não represente a última etapa da evolução humana.
O mal-estar da civilização
Foi justamente essa tensão que Sigmund Freud procurou compreender em O Mal-Estar na Civilização. Para Freud, a cultura nasce do esforço permanente de ampliar os vínculos humanos e conter a agressividade presente em cada indivíduo. A civilização procura reunir pessoas em comunidades cada vez maiores, criando normas, valores, instituições, leis e tradições capazes de tornar possível a convivência.
Essa tarefa jamais se completa, o desejo individual, a busca por felicidade, a rivalidade e a agressividade continua existindo, quanto maior a comunidade humana, maior também o desafio de equilibrar as necessidades individuais com as exigências da vida coletiva.
Freud percebeu que esse conflito não poderia ser simplesmente eliminado pelo estado, religião ou moral. O estado pode limitar comportamentos, a religião pode inspirar valores, a moral pode orientar escolhas, mas nenhuma dessas instituições consegue transformar, por si só, a natureza humana. Podem organizar a convivência, mas não eliminam a polaridade que habita cada pessoa, por essa razão, toda civilização convive com um permanente mal-estar.
As feridas da cultura
Décadas depois, Gabor Maté amplia essa reflexão ao mostrar que a cultura não apenas organiza a convivência humana, mas também molda profundamente nossa personalidade. Desde a infância somos formados pelas relações que estabelecemos, pelas formas de cuidado que recebemos, das expectativas sociais e modelos culturais que nos cercam. Em nome da adaptação, aprendemos a esconder partes de nós mesmos, desenvolvemos mecanismos de defesa e passamos a considerar naturais comportamentos que muitas vezes representam apenas estratégias inconscientes de sobrevivência.
Uma cultura organizada em torno da competição permanente, da comparação, do medo, da escassez ou do desempenho tende a produzir indivíduos marcados por essas mesmas experiências. O egoísmo deixa então de ser apenas uma questão moral, torna-se também um fenômeno cultural, onde a sociedade forma pessoas, e as pessoas reproduzem a sociedade. Esse círculo ajuda a compreender por que tantas tentativas de transformação social acabam fracassando, pois mudam-se as instituições, mas os padrões interiores permanecem praticamente os mesmos.
O humanismo como próximo passo
Se Harari mostrou como aprendemos a cooperar e Freud revelou o conflito permanente que acompanha essa cooperação, o desafio de nosso tempo é ampliar novamente o círculo de nossa consciência. O humanismo não exige que abandonemos nossa cultura, nossa língua ou nossa identidade nacional. Também não dissolve os povos em uma humanidade abstrata, ao contrário, reconhece que cada povo possui uma contribuição singular para oferecer ao conjunto da humanidade.
O verdadeiro patriotismo amadurece quando deixa de atuar para fortalecer “apenas” o nosso povo e passa a se perguntar "como nosso povo pode servir à humanidade?". Nesse momento, o pertencimento deixa de ser um fim em si mesmo, transforma-se em responsabilidade.
O patriotismo encontra sua realização mais elevada justamente quando se converte em serviço.
A autoeducação e a ampliação da consciência
Apesar das diferenças entre as abordagens dos autores citados neste temos, existe algo que converge e direciona suas obras, a transformação da vida humana exige que aquilo que hoje permanece oculto possa tornar-se consciente.
A razão é indispensável, mas sozinha, não basta, podemos compreender intelectualmente nossas ideias e, ainda assim, permanecer governados por impulsos, medos, traumas, desejos de reconhecimento e formas inconscientes de agressividade. Grande parte do mal-estar da civilização nasce justamente dessa distância entre aquilo que pensamos ser e aquilo que, de fato, continua agindo em nós.
A maior expressão dessa agressividade não é apenas a violência dirigida ao outro, mas a que muitas vezes se volta contra nós mesmos, manifestada na culpa permanente, na necessidade incessante de provar nosso valor, na incapacidade de amar, na competição constante, na ansiedade e nas inúmeras formas pelas quais nos afastamos de nossa própria realidade.
Por isso, superar o mal-estar da civilização não significa eliminar o conflito humano, significa desenvolver uma consciência capaz de reconhecê-lo. A cura não acontece pela negação de nossas sombras, mas pela coragem de olhá-las com verdade. Aquilo que permanece inconsciente tende a governar nossa vida, aquilo que se torna consciente pode começar a ser transformado.
É nesse ponto que diferentes caminhos de desenvolvimento humano se encontram. A psicanálise propõe tornar consciente o inconsciente, Gabor Maté convida a reconhecer os traumas e mecanismos de adaptação que moldaram nossa personalidade. Rudolf Steiner apresenta exercícios de autoeducação que fortalecem a capacidade de observar o pensar, o sentir e o querer, ampliando gradualmente a consciência para além das reações automáticas da personalidade.
Todos eles apontam para uma mesma direção: o desenvolvimento humano exige uma forma de consciência que ultrapasse a simples elaboração racional. Uma consciência capaz de perceber a realidade com maior profundidade, reconhecendo tanto as forças que nos limitam quanto aquelas que tornam possível uma ação verdadeiramente livre.
É justamente aí que o patriotismo encontre sua realização mais elevada, o amor deixa de permanecer restrito ao círculo da identidade coletiva e transforma-se numa capacidade de reconhecer a humanidade presente em cada pessoa. O humanismo vai além de ser uma ideia política ou filosófica é uma experiência interior que orienta a ação.
A forma como organizamos nossas escolas, trabalho, economia, cultura e comunidades pode favorecer ou dificultar esse processo. Toda organização social educa, fortalece determinados modos de pensar, sentir e agir, por isso, construir instituições que favoreçam o desenvolvimento humano não significa substituir o trabalho interior de cada pessoa, mas criar um ambiente onde essa ampliação da consciência possa florescer com maior liberdade.
A grande revolução da humanidade não é apenas tecnológica, econômica ou política. Vem da coragem de conhecer a si mesmo. É justamente nesse encontro sincero com nossas próprias sombras que pode nascer uma consciência capaz de transformar o egoísmo em responsabilidade, o pertencimento em serviço e o amor em ação.